quarta-feira, maio 20, 2015

Eu Li: Dois Garotos se Beijando - David Levithan



Título:
Dois Garotos se Beijando
Autor:
David Levithan
Editora:
Galera Record
Onde Comprar:
Submarino | Saraiva | FNAC


Baseado em fatos reais e em parte narrado por uma geração que morreu em decorrência da Aids, o livro segue os passos de Harry e Craig, dois jovens de 17 anos que estão prestes a participar de um desafio: 32 horas se beijando para figurar no Livro dos Recordes. Enquanto tentam cumprir sua meta — e quebrar alguns tabus —, os dois chamam a atenção de outros jovens que também precisam lidar com questões universais como amor, identidade e a sensação de pertencer.


David Levithan não conhece limites. Para quem não o conhece, o autor de “Todo Dia” e “Garoto Encontra Garoto”, também lançados no Brasil pela Galera Record, tem uma fama fixa de maravilhoso, mas com “Dois garotos se beijando” ele alcançou um nível difícil de superar. Serei franca com vocês: esse é o meu novo livro favorito de David Levithan e vou tentar explicar o porquê. Acompanhem-me.

Para começar, a narrativa “Dois garotos se beijando” é bem diferente, cativante e emocionante. A primeira vista, é uma narrativa confusa porque é na 1ª pessoa do plural. Os “nós” que nos contam a história são personagens históricos. Pessoas que morreram há anos por “n” motivos, mas todos relativos à homossexualidade. Se hoje, que estamos com um avanço incrível de direitos, temos casos lamentáveis sobre mortes de homossexuais, imaginem nos anos 60, 70. A sinopse no Skoob diz que o livro “é inspirado em fatos reais e em parte narrado por uma geração que morreu em decorrência da Aids”, mas não apenas. Esses narradores tocaram profundamente o meu coração como leitora e como ser humano. Espero de coração que eles também incomodem vocês.

“Dois garotos se beijando. Vocês sabem o que isso que dizer. Para nós, era um gesto tão secreto. Secreto porque sentíamos sempre medo. Secreto porque sentíamos vergonha. Secreto porque era uma história que ninguém estava contando. Mas que poder isso tinha. Quer nós disfarçássemos como a desculpa de ‘você será o garoto e eu serei a garota’, quer chamássemos de forma desafiadora pelo nome correto, quando nos beijávamos era quando sabíamos o quanto era um gesto poderoso. Nossos beijos eram sísmicos. Quando vistos pela pessoa errada, podiam destruir. Quando compartilhados com a pessoa certa, tinham o poder da confirmação, a força do destino. (...)Todas as vezes que víamos dois garotos se beijando assim, o poder aumentava (...) Estamos falando de ver dois garotos que se amam se beijando. Isso tem muito mais poder do que o sexo. E mesmo se tornando lugar-comum, o poder ainda está presente. Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês. Este é o poder de um beijo: ele não tem o poder de matar você. Mas tem o poder de trazer você à vida.”
O livro é, basicamente, feito de fragmentos tocantes. E são fragmentos carregados de representatividade e repletos de significados.

Outra singularidade é que o livro não possui capítulos. Ele nos é contado em pequenas partes das várias ações dos personagens abordados. Harry e Craig querem quebrar o recorde mundial do beijo de maior duração. A meta deles é passar pouco mais de 32 horas se beijando. E, acreditem, não é um objetivo simplório. Eles querem mostrar ao mundo que não há nada de errado em um garoto beijar outro garoto. Que não faz sentido sentir ódio pelo amor do outro. Seus motivos são fortes e não será fácil vencer esse desafio.

Paralelo a eles, também conhecemos Cooper, Peter, Neil, Tariq, Avery, Ryan e suas respectivas vidas. Todos eles tem algo em comum: gostam de garotos. Mas algumas dessas vidas são bastante discrepantes. É possível um ser humano passar por uma mesma situação que outro e ter uma reação diferente. Faz parte da ontologia de todos nós. David Levithan nos apresenta a vida desses personagens com suas dificuldades, seus medos e suas alegrias e, acreditem, é um privilégio conhecê-los.

Preciso constar aqui que chorei bastante com esse livro. Cada um dos personagens me envolveu de tal forma que creio estar transformada para sempre.

Enquanto isso, os narradores vão nos dando perspectivas interessantes de vida. Não apenas da vida dos personagens, mas vislumbres de como suas próprias eram, do que poderia ter sido para eles e de como as coisas são hoje . É doloroso e maravilhoso ter esse ponto de vista.

“Vocês não tem como saber como é para nós agora; sempre estarão um passo atrás. Agradeçam por isso. Vocês não tem como saber como era para nós antes; sempre estarão um passo à frente. Agradeçam por isso também. Acreditem em nós: existe um equilíbrio quase perfeito entre o passado e o futuro. Enquanto nos tornamos o passado distante, vocês se tornam um futuro que poucos de nós poderiam ter imaginado. (...) Houve uma época em que éramos como vocês, só que nosso mundo não era como o seu. Vocês não fazem ideia do quanto chegaram perto da morte. Uma geração ou duas antes, e vocês talvez estivessem aqui conosco. Nós nos ressentimos de vocês. Vocês nos deixam pasmos.”

Sempre que me refiro a David Levithan, comento que ele escreve livros sobre pessoas e que tem conflitos de pessoas; mesmo que várias delas sejam homossexuais. O autor não costuma traçar uma linha entre héteros e gays. Hey, todos somos pessoas e todos temos problemas, certo? Certo. Mas em “Dois garotos se beijando”, David Levithan arregaça as mangas e põe a mão na representatividade. Ele expõe aqui conflitos que os gays passam em suas diversas formas. Pais que não aceitam, pais que acolhem, pais que sabem - mas preferem fingir que não está acontecendo nada, violência sofrida por estranhos, violência (física e/ou psicológica) sofrida em casa... são situações diversas; algumas maravilhosas e outras alarmantes. São fatos e não podemos fingir que não existem. O autor, em sua prosa poética, tem uma conversa franca com o leitor sobre como a vida pode ser injusta com algumas pessoas só pelo fato de elas serem quem são.

“Dois garotos se beijando” é um livro necessário. Sério, queria comprar caixas dele e sair distribuindo pela minha cidade. David Levithan é maravilhoso e incrível no que se propõe a fazer e sou grata pela oportunidade de ter suas obras em minha estante e em minha vida. Se vocês tiverem acesso à ele, não hesitem! Esse livro não vale 5 estrelas; vale constelações inteiras.

4 comentários:

  1. Fernandinha, tenho quase certeza que as pessoas que contam a história foram pessoas que morreram de AIDS, ele deixa isso claro em alguns comentários às vezes.

    Eu já atingi 90% do livro e hoje à noite termino a leitura, mas estou achando bem interessante. Acho que a proposta principal do livro é apresentar esse discurso do já foi pior embora não esteja melhor, tanto que hoje você pode encontrar um livro intitulado "Dois Garotos Se Beijando" na Saraiva logo na prateleira de entrada e até um tempo atrás isso causaria um espanto que nooooossa.

    Identifiquei-me com muitas partes do livro por motivos óbvios.. Muita coisa que todo gay adolescente passa durante seus anos de descobrimento estão lá. Quando eu tiver um tempo, escrevo uma resenha sobre o meu ponto de vista =)

    Um abraço.

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    Respostas
    1. Oi, querido. As vozes da narrativa são pessoas que morreram de AIDS, sim, mas em certa parte do livro ele dá outras alternativas que "eles" parecem se incluir. É inegável que são pessoas que sofreram ao pior (como bem pontuas) e hoje observam essa ~evolução~ de perspectivas.
      Eu não preciso ser gay para me emocionar com essa história. Por mais que, aparentemente, David Levithan esteja escrevendo esse livro para o público gay (logo no começo do livro ele chama a atenção diretamente para vocês), todas as pessoas tem o que ganhar com essa leitura.
      Eu amo esse autor, Elder. Se tu gostares do livro e quiseres outros dele, basta falar comigo ;)
      Beijos e obrigada por comentar ;)

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  2. Que amor de resenha, fermina!
    Estava louca pra ler esse livro e agora quero mais ainda. Dele só tenho Will&Will que tá na fila de espera, mas acho que vou adiantar um pouco haha
    Assim que ler de dou o veredicto ;)

    beijos da sua Bréir =*

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    1. Tu precisa ler algo desse homi, Bréir. É um autor maravilhoso. Nem sei lidar, olha. ?
      Também estou com "Will & Will" para ler há mais de um ano!! Em breve vou resolver isso aí porque também amo John Green. Enfim, leia, leia.
      Obrigada por comentar ♥

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