Na Tela #26 - O ódio que você semeia

Olá, leitores!

Cá estou para mais uma indicação essencial para vocês. 
Não raro sou influenciada a ler livros por filmes e séries e o post de hoje trata de mais um exemplo desse. 
Durante a Festa Literária Pará Ler que aconteceu em Belém há algumas semanas tive a oportunidade de ter em mãos o filme "O ódio que você semeia". Eu já tinha o livro há um tempinho mas vocês sabem como é leitor afobado, né? Tem tanta coisa na estante que fica até difícil de escolher as leituras. No entanto, pós o filme foi uma decisão bem fácil.
Falarei um pouco de ambas as formas de arte, no meu ponto de vista, e fiquem a vontade para trocarmos figurinha sobre o assunto. 


Título:
O ódio que você semeia
Autora:
Angie Thomas
Editora:
Galera Record

Adicione à sua estante

Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Não faça movimentos bruscos.
Deixe sempre as mãos à mostra.
Só fale quando te perguntarem algo.
Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto.
Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.
Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.
 O Livro  

"O ódio que você semeia" é um daqueles livros incômodos, reflexivos e necessários, sobretudo em nossa atualidade.
Foi publicado em 2017 no Brasil, em uma época de mudanças latentes da perspectiva social e que, infelizmente, não de forma muito positiva, ao meu ver. 
Ao acompanhar a história de Starr e sua trajetória, com sua família e amigos dos dois mundos, não pude deixar de me perguntar se a sociedade realmente mudou um pouco ou apenas se camuflou pois nunca deixou de ser: cruel, elitista, racista, homofóbica e todas as coisas ruins que temos vivenciado diariamente. 

A nossa protagonista é uma garota de 16 anos, negra, que mora em um bairro criminalizado socialmente mas convive com pessoas de outras classes sociais (a Starr poderia ser eu, real oficial) pois estuda em um colégio particular. 
A história começa em um dia que era para ser de festa e distração mas se tornou um pesadelo: em uma parada policial, seu amigo de infância foi morto à tiros, mesmo não representando nenhum tipo de perigo naquele momento. 
Khalil era um rapaz jovem, complexo como todos nós, e negro. 
A sua morte afetou toda a comunidade, sobretudo Starr e sua vida a partir daquele momento, principalmente se levarmos em consideração que a sociedade de modo geral culpabilizava Khalil por sua morte, afinal, ele era um bandido que morava em um gueto. Ele procurou. Ele mereceu. 
Ele mereceu? 
As pessoas merecem morrer por seus erros? 

Várias pessoas compreendiam que o policial só estava trabalhando mas poucos dos que não conheciam Khalil e sua história pensavam nele com um ser humano que merecia viver. 
Essa história desperta uma reflexão interessante: somos nós, juízes de valor, que apontam quem merece viver ou morrer, sobretudo quando esse corpo é negro e periférico? 
Alguns corpos valem mais do que outros? A resposta correta para essa pergunta é não mas, infelizmente, sabemos que é socialmente aceito que sim. 

Recentemente algumas pessoas foram assassinados em um bar em um bairro periférico de Belém e ouvi coisas do tipo: "se não tivessem procurado estariam vivos" ou "pelo menos eram traficantes, né", como se o fato de uma pessoa cometer atos ilícitos dessem à ela automaticamente o mérito da morte. E não uma morte qualquer, mas uma morte ultrajante, indigna. 
Starr conhecia Khalil além de seus erros e posterior a sua morte o conheceu um pouco mais através de outras pessoas. Khalil era um corpo negro que foi negligenciado e morto e mesmo após esse fato foi relativizado por circunstancias atenuantes para inocentar um policial racista e assassino.  
Paralelo ao poder punitivo do estado, temos a feriada social. Aquele que o ódio semeou e que está plantado e consolidado e que é difícil de mudar. 
O traficante local não tem interesse no testemunho de Starr para a justiça pois pode prejudicar os seus "negócios" então ele também será um vilão que em nenhum momento é romantizado, apesar de algumas reflexões se aplicarem à ele também. 

Além de reflexões da perspectiva social, "O ódio que você semeia" também traz a noção de militância e esperança. 
O pai de Starr é um militante que ensinou bastante aos filhos sobre o perverso mundo em que vivem e nos leva a um patamar de estimulo para fazer a diferença. 
A transformação, no entanto, só vem através de movimento então teremos manifestações e um povo cansado e não domesticado. Um povo que quer lutar por - vejam só que atrevimento - suas vidas. 
São diversos personagens com diferenciadas vivências e dificuldades, todos importantes e fundamentais para o enredo da história. 

Esse livro me trouxe algo novo e estou grata pela experiência proporcionada, de verdade. 

O Filme

A adaptação deu uma ótima percepção do livro, apesar de a literatura ser mais completa em diversas perspectivas, sempre tenho em mente que filme é uma mídia diferente e tem suas particularidades. 
Isso significa que alguns personagens da história sumiram e outros foram encorporados em apenas um personagem. 
A nossa pequena Rue, de Jogos Vorazes, cresceu e deu rosto e voz para Starr nessa adaptação que é linda e desesperadora, tal qual o livro, se vocês querem saber. 

Com um elenco incrível, que conta com Amandla Stenberg, como Starr, Regina Hall, como Lisa, mãe de Starr, Russell Hornsby, como Maverick, o pai militante da protagonista, Algee Smith, como Khalil e KJ Apa, como Chirs, o namorado branco da gata, fui transportada para  a história dolorida e real de muitas pessoas até hoje. 

Quando li o livro já emprestei o rosto dos atores à minha imaginação, apesar de algumas sutis diferenças nas descrições dos personagens livro versus filme. 

Como supracitado, um filme, às vezes, precisa ser mais sucinto para caber a essência do livro no roteiro e acredito que "O ódio que você semeia" foi um sucesso nesse aspecto, apesar de eu adorar se tivessem destaque e fossem mais desenvolvidos personagens como Seven, irmão de Starr, e DeVante, um personagem que mal apareceu na adaptação mas que é de uma importância vital para o livro. 
No mais, acredito que a adaptação foi ótima em repassar todas as questões que o livro debate de uma forma interessante e convidativa.
A direção foi de George Tilman Jr e foi lançando nos cinemas americanos em 2018.
Infelizmente ficou pouquíssimo tempo nos cinemas brasileiros pois sequer tive a oportunidade de assistir na época mas bendito são os DVDs (sou das antigas, eu sei).

Confiram o trailer:



Espero que vocês tenham a oportunidade de conhecer essa história incrível, seja lá qual for a mídia.
Para os que já leram ou assistiram, não deixem de comentar o que acharam!

Até a próxima!

Assistente social apaixonada por livros. Militante da transformação social através da literatura.

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