terça-feira, dezembro 19, 2017

Na Tela #17 - The Handmaid's Tale

Olá, leitores!

Hoje quero indicar para vocês uma série que mexeu comigo de muitas formas; e nem uma delas foi confortável. Se trata de uma distopia com tanta verossimilhança com a nossa realidade que é quase uma história de terror, principalmente para as mulheres. Vamos lá.




Título: O Conto da Aia Autora: Margaret Atwood 

Editora: Rocco 


Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.

O Livro  

O livro é inteiramente toda a agonia que a sinopse traz. A história é da perspectiva de uma aia denominada Offred. E ela ainda lembra de como era antes de toda a mudança. Agora sua vida se passa na república teocrática de Gilead e ela é uma propriedade do estado. Antes, tinha uma família, um trabalho e um nome. Agora ela é apenas a "of Fred", indicando que é o receptáculo de Fred. Nessa nova sociedade, gestação não é algo comum e as Aias são a saída para algumas famílias ricas que querem ter filhos. Afinal, filhos são bençãos do Senhor e toda a mulher quer ter uma criança para cuidar e "ser completa". É interessante que a proposta indicada no livro é que "as mulheres não podem engravidar", no entanto, não se discute abertamente a possibilidade de o homem ser incapaz de ter filhos então a ~culpa do fracasso~ recai sobre as mulheres. Portanto, Offred está neste novo mundo apenas para procriar. Quando ela cumprir sua missão de engravidar e ter o bebê, irá para outra família rica para repetir o processo. Cruel. Brutal. E ainda tem muito mais. As novas regras da sociedade são estabelecidas de forma extremamente conservadoras e as Aias tem um papel representativo nela. Tudo em Gilead é sufocante e machista e as mulheres - de todas as classes sociais -, definitivamente, não tem espaço nessa nova ordem. 

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Já como o livro é todo na perspectiva de Offred, temos um relato cruel do que é ser forçada a viver em um mundo que não te reconhece como pessoa. Eu, como mulher, me senti impotente durante a leitura. E após momentos de reflexões, me vi amedrontada pela possibilidade de realidade que a história relata. E por falar em reflexões, o livro nos convida a mergulhar nelas e, querendo ou não, é uma experiência muito forte. 


Todo o universo de "O conto da aia" inspira terror nas mulheres. Tentem compreender: em um dia vivemos nossa vida normalmente; estudamos, vamos à universidade, às festas, em suma, somos livres. E quando amanhece não podemos mais fazer transações de banco em nosso nome; nossos bens vão para a responsabilidade de um homem próximo à nós. Não podemos mais votar ou sair sozinhas e sequer ler. Afinal, a literatura pode trazer algumas ~ideias perigosas~. Um ponto muito relevante no livro é que ele traz com muita clareza a questão da perda da liberdade. Offred não nasceu com aquela sociedade estabelecida. Ela viveu a transição na pele e nos passa todo o terror e medo da situação. E esse é o ponto que me remete ao livro de Eric Novello, "Ninguém nasce herói", que resenhei recentemente: o choque da perda. Não que seja mais fácil nascer em mundo ruim mas estar no meio da transformação de direitos revogados deve ser desesperador. Ainda sobre "O conto da aia", outras personagens nos são apresentadas, junto com as suas vidas interrompidas, e me partiu - ainda me parte - o coração várias vezes de sequer pensar na possibilidade de viver em um mundo parecido com esse.
Em "O conto da aia", a pauta feminista é levantada pela obvia sociedade machista que faz o pano de fundo da história, na relação de ausência de direitos das mulheres e principalmente em suas percepções e resistências.
A autora Margaret Atwood é conhecida por debater o feminismo em suas obras e tem estado em bastante evidência no cenário atual. Em breve falaremos mais sobre outros livros e produções inspiradas na autora.

A série 

O livro de Margaret Atwood foi adaptado pela TV por Bruce Miller, e lançado no serviço de streaming Hulu em abril de 2017. Elisabeth Moss interpreta a personagem principal, Offred, em conjunto de um elenco de peso, como Joseph Fiennes (Comandante Waterford) e Alexis Bledel (Ofglen). Confiram o trailer. 



A série me surpreendeu positivamente com a fidelidade da história do livro. Com 10 episódios na 1ª temporada, a adaptação traz todo o peso que contém na literatura. Obviamente que há algumas diferenças, no entanto, ao meu ver, não prejudicou em nada no conteúdo. Uma interessante diferença entre o livro e a mídia - que é mais de percepção minha do que outra coisa - é o fato de que o livro se conclui de forma inacabada para alguns olhares. Ou seja, não se sabe o que acontece realmente com a protagonista. A escolha para o final do livro é inteiramente do leitor. E na série, o fato de a conclusão ser fiel ao livro indica fortemente que haverá uma continuação.  O que já foi estabelecido, pois a 2ª temporada já foi confirmada para o primeiro semestre de 2018. É, portanto, um alívio saber que a autora está envolvida na produção da adaptação.

Também existe outras perspectivas na série de TV, o que considero ótimo pois podemos observar como a história se desenvolve de vários ângulos. No livro, chegamos a conhecer outros personagens mas só podemos vê-los pelos olhos de Offred. Na série, temos outras histórias paralelas que acontecem junto ao enredo da protagonista. Podemos ver como a sociedade é organizada, como a resistência existe e como as outras pessoas lidam com esse novo e terrível mundo. 


Em suma, "O conto da aia", e consequentemente a série The handmaid's tale, é uma obra imperdível, seja na literatura ou na TV. E o fato de a nossa crise política atual no país estar alcançando níveis perigosos, talvez seja interessante termos uma perspectiva que nos faça questionar, refletir e - por que não? - temer.
The Handmaid's tale recebeu cinco prêmios no Emmy em 2017: melhor série dramática, atriz (Elizabeth Moss), atriz coadjuvante (Ann Dowd), roteiro (Bruce Miller) e direção (Reed Morano).
Repito: uma obra imperdível. 

Espero que vocês sigam a dica. Quem já assistiu a série ou leu o livro, comentem aqui para trocarmos ideia.
Até a próxima, pessoal! 


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