segunda-feira, março 07, 2016

Eu Li: Pssica - Edyr Augusto


Título:
Pssica
Autor:
Edyr Augusto
Editora:
Boitempo 
Uma adolescente é raptada no centro de Belém do Pará e vendida como escrava branca para casas de show e prostituição em Caiena. Um imigrante angolano vai parar em Curralinho, no Marajó, onde monta uma pequena mercearia, que é atacada por ratos d'água (ladrões que roubam mercadorias das embarcações, os piratas da Amazônia) e, em seguida, entra em uma busca frenética para vingar a esposa assassinada. Entre os assaltantes está um garoto que logo assumirá a chefia do grupo. Esses três personagens se encontram em Breves, outra cidade do Marajó, e depois voltam a estar próximos em Caiena, capital da Guiana Francesa, em uma vertiginosa jornada de sexo, roubo, garimpo, drogas e assassinatos.

“Pssica” é o primeiro livro que leio de Edyr Augusto. O autor é paraense e o conheci pelos cafés da vida (mais especificamente, no da FOX), mas tive um contato mais forte com sua obra em conversas com Felipe Larêdo, que me indicou alguns livros na 2ª edição da Feira Literária do Pará, que aconteceu ano passado (saiba mais aqui). Felipe foi sincero ao dizer “talvez doa”. 
Bem, com certeza doeu.

Pssica no dicionário papa-chibé significa maldição. Portanto, pssica é uma praga que é rogada para atingir as pessoas. Pode parecer coisa de louco mas há quem acredite piamente nessa superstição. Principalmente os personagens dessa história.

O enredo já começa para estremecer e nos dá duas histórias paralelas que se cruzam no Pará. 
A primeira é de uma moça que tem um vídeo íntimo exposto na internet e é expulsa de casa pelos pais. Vai morar com uma tia perto do centro comercial de Belém e lá conhece uma mocinha nada flor que se cheire. Acaba caindo na mão dos que coordenam o trafico de mulheres. A segunda é de um africano com sotaque forte que o povo insiste em chamar de “Portuga”. Ele foi parar pelo interior, em Curralinho, onde se casou e viveu bem por vários anos, até que uma quadrilha de ratos d’água assaltam seu comercio e levam sua mulher. Ela acaba brutalmente torturada e morta. Portuga, ao lado de um companheiro, saí atrás dos responsáveis com sede de vingança mas tudo que vai encontrar é mais desgraça.
O enredo é repleto de pequenos casos e vários personagens com histórias muito infelizes. No entanto, é perceptível que o autor não quer se portador de boas notícias e o leitor pode perceber isso logo nas primeiras páginas. “Pssica” é um livro pequeno para muita desgraça e o que mais dói é que as histórias aqui contadas não são propriamente fictícias. Ignoramos o suficiente para levarmos a vida de forma normal, mas bem pertinho de nós - no Brasil, no Pará, em Belém - há violações acontecendo, talvez, nesse exato momento.

Edyr Augusto vai falar sobre tráfico de mulheres, prostituição, corrupção e desinteresse de gestão pública de uma forma tão crua e direta que 94 páginas foram o suficiente. 

A literatura tem o poder de despertar o leitor para o invisível e tirá-lo de sua zona de conforto para ver que a realidade e mais do que vemos da nossa janela. Em geral, todo livro tem esse poder, mesmo as fantasias, pois acabamos sentindo empatia pelos personagens; compreendendo suas motivações e, muitas vezes, sofrendo com eles. Mas Edyr Augusto pegou todos os mecanismos viáveis em “Pssica” e nos deu uma ficção com ares dolorosamente realistas.

O livro é composto por capítulos curtos, numa prosa singular. A linguagem é bastante regionalista, com vários palavrões e termos pontuais usados no Pará, o que achei bem propício para a proposta da história. Os parágrafos são cheios de frases curtas e diretas e não há indicação de diálogo, por mais que eles aconteçam; A própria leitura deixará a intenção dos discursos dos personagens obvia. Não sei se foi intencional para acelerar o ritmo de leitura, deixando o livro ainda mais aflitivo, ou se é apenas o estilo do autor. Mas posso garantir que descobrirei em breve, pois as leituras de Edyr Augusto se tornaram obrigatórias.

“Pssica” é um livro cruel que aborda realidades tão distantes, e ao mesmo tempo tão próximas, que se sobrepõe uma angustia inevitável e pontualmente saudável. Precisamos nos importar.

Edyr Augusto lançou “Pssica” em 2015, pela Editora Boitempo, mas já tem vários livros aclamados, como “Os éguas”, de 1998, e “Moscow”, de 2001. Sua obra foi traduzida na França, no México, no Peru e na Inglaterra. E em 2015, recebeu o prêmio Caméléon de melhor romance estrangeiro, por “Os Éguas”, que foi traduzido com o título de “Belém”, na França.
Creio que esse reconhecimento é apenas um indicador que precisamos ler Edyr Augusto. 

Leitura obrigatória

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