sábado, março 18, 2017

Eu Li: Os Invernos da Ilha - Rodrigo Duarte Garcia

Título:Os Invernos da Ilha
Autor:
Rodrigo Duarte Garcia

Editora:
Record

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Romance de estreia do jovem autor Rodrigo Duarte Garcia tratado desde já como o Conrad brasileiro
Os invernos da ilha é um livro de aventura, como não há no Brasil, que reúne um herói atormentado (e logo apaixonado), uma ilha fria e hostil escolhida como exílio (num convento misterioso), a descoberta de um diário de piratas (e, assim, a reconstrução de uma incrível história de corsários) e a busca por um tesouro escondido. Como diz Martim Vasques da Cunha no texto de orelha: Rodrigo já pertence à categoria dos mestres. Os invernos da ilha costura Wallace Stevens, Melville, Conrad, Patrick OBrien, os filmes de Indiana Jones, Os Goonies sobrando até mesmo para o compositor Rachmaninoff , com tamanha habilidade, que o leitor ficará atônito ao perceber que, no meio disto tudo, há a alegria de narrar uma verdadeira história.

É um pouco difícil classificar exatamente o que Os Invernos da Ilha é. Primeiramente dá pra dizer que são dois livros em um. Sem dúvida tem um pouco de aventura e mistério, mas está muito longe de ser o foco principal da trama.

O personagem principal é Florian Links, um professor que está fugindo de um doloroso passado, visitando um amigo de faculdade que se tornou monge no mosteiro de Santa Cruz, localizado na ilha de Sant'Anna Afuera (local fictício). Links tem aspirações de se tornar monge desse mosteiro e está passando por um período de experiência, até que possa tomar sua decisão final. Lá, ele conhece Philippe Rousseau, um professor francês que está ali para analisar alguns relatos históricos e traduzir o diário de Olivier van Noort, um corsário holandês (personagem histórico real) que visitou a ilha de Sant'Anna durante a época das grandes navegações.

A primeira parte do livro alterna capítulos entre os acontecimento do presente, (sobre como Links lida com seu passado, com a experiência vivida no mosteiro e apresentando os personagens secundários da trama) e de um passado distante, através dos relatos do diário de Olivier van Noort, a medida que Rousseau o traduz. As duas tramas se entrelaçam no momento em que Links e Rousseau começam a analisar a trilha de navegação de Noort e desconfiam da existência de um tesouro escondido na ilha de Sant'Anna, fruto das pilhagens do corsário e enredo que leva adiante a segunda parte do livro.

Eu agradeci, coloquei as folhas no bolso e desejei-lhe boa noite. Rousseau virou-se e a cinco passos de distância já era indistinguível na escuridão.
Um acúmulo de nuvens havia coberto o céu e as poucas estrelas agora pareciam muito distantes, opacas. O vento soprava com força e carregado de sal.
Fiquei ali mais um tempo pensando em nada muito importante, sem fazer a menor ideia de que aqueles papéis amassados no bolso traseiro da minha calça jeans guardavam uma descoberta extraordinária, e iriam mudar tudo.

A primeira coisa que me chamou a atenção no texto é que ele tem um "q" de lírico. A trama toda é escrita em primeira pessoa e tanto Florian Links, quanto Philippe Rousseau são altamente intelectuais (o segundo até bastante pedante), trazendo para o texto muito desse estilo de fala poético. Links fala o tempo todo como se estivesse num poema, coisa que faz funcionar muito bem toda a descrição do cenário, mas em dado momento acaba fazendo a trama ficar um tanto repetitiva.

Nesse ponto, há um problema extra: a trama inteira é extremamente simples, mas desenvolvida ao longo de 462 páginas. O livro realmente é muito maior do que precisava ser, num ponto que, após ter lido metade eu estava com sensação de que ainda não tinha acontecido nada. A divulgação também não ajuda, citando referências a Indiana Jones, Goonies e outros clássicos de aventura, quando na verdade a primeira parte do livro quase não tem nada a ver com esse tipo de trama. 

A primeira parte da trama (e a maior, ocupando mais da metade do livro) se passa exclusivamente no mosteiro e na cidade próxima. Somos apresentados a Florian Links (inicialmente não se sabe exatamente o que ele faz ali), sabendo apenas que eles está interessado na tradução do diário de Olivier van Noort. Aos poucos vamos conhecendo os personagens secundários: o próprio Philippe (que desde o primeiro momento se mostra bastante irritante e pedante), a enfermeira Cecília (que em dado momento vira interesse amoroso de Links, apesar de ser companheira de Philippe) e Viviana (uma garota que Links salva de um afogamento e com quem acaba tendo um caso). 

A medida que as páginas do diário são traduzidas e revelam a história na época das Grandes Navegações, o personagem principal também é desenvolvido e vamos descobrindo também seu passado em específico. Um ponto a se destacar é a capacidade do autor de desenvolver bem os personagens: todos (incluindo uns até bem secundários) evoluem em resposta aos acontecimentos da trama. O grande problema aqui é a lentidão com que a história avança: pistas vão aparecendo sobre o tesouro e sobre o que exatamente Links está buscando no mosteiro, mas tudo é muito desconexo. 

Já a segunda parte (que abandona o cenário do mosteiro) tem um inversão completa do que vinha sendo mostrado até então, parecendo até outro livro. As descrições se tornam mais rasas e a história avança bem mais rápido. Apesar de ainda bastante desconexa, a parte aventuresca entrega bem mais do que é vendido na sinopse e o texto se torna dinâmico. Os enigmas apresentados são bem instigantes e as soluções, bem legais. Talvez um único pecado tenha sido o final que culmina num baita clichê dos filmes de aventura. 

A única coisa que acabou sendo extremamente irritante para mim nessa segunda parte foi a pedância de Philippe Rousseau. Apesar de muito convencido, na prática, ele não sabe de nada. Mas, mesmo assim ele é sempre tratado como o lider, a despeito de Cecília e Viviana que são personagens bem mais inteligentes e articuladas. Achei essa abordagem desnecessária e ficava o tempo toda torcendo para uma das duas tomarem as rédeas da situação, coisa que infelizmente não aconteceu.  

No final das contas, apesar de ter me enrolado bastante no início do texto e achá-lo um tanto repetitivo e cansativo, no final curti o livro. Talvez se ele fosse um tanto mais curto a experiência fosse melhor.


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