terça-feira, fevereiro 19, 2013

[Garoto Pai D'égua] A Vida de Pi - Yann Martel

 

Título:
A Vida de Pi
Autor(a):
Yann Martel
Editora:

Nova Fonteira
Onde Comprar:
Submarino | Saraiva | FNAC

O narrador da história é um garoto indiano de 16 anos chamado Piscine Molitor Patel, mais conhecido como Pi. Sua família administra um zoológico na cidade de Pondicherry, mas decide abandonar o país no auge de sua instabilidade política, nos anos 70. A idéia é se mudar para o Canadá, pegando carona no cargueiro que transferirá os animais do zôo para os EUA. Infelizmente, o navio afunda logo nos primeiros dias de viagem. Há apenas cinco sobreviventes: Pi, uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de Bengala, todos salvos pelo único barco salva-vidas disponível. Inicia-se aí uma cruel luta pela vida entre cinco mamíferos no meio do oceano Pacífico. Aparentemente, Pi não tem a menor chance de escapar das feras.
Enquanto aguarda sua vez de ser devorado, o garoto tenta encontrar alguma remota possibilidade de matar o tigre, o que é praticamente impossível: o animal está saudável, pesa mais de 200 quilos e é capaz de nadar. À beira do desespero, Pi conclui que o melhor a fazer é manter o felino vivo e dependente de seus cuidados. Esta é sua única chance. O jovem usa o conhecimento que adquiriu no trato dos animais no zoológico para domar a fera e conquistar o seu respeito. E o tigre, acostumado a viver numa jaula e a ser alimentado pelos humanos, não demora para perceber que precisa de Pi vivo. O mais impressionante é que o autor, Yann Martel, consegue dar um final surpreendente a uma história tão incomum. A conclusão desta aventura imprevisível contrapõe a grandiosidade e a mediocridade que coexistem em todo ser humano.



Um dia antes de começar esse livro eu estava pela livraria buscando uma nova aventura e me dei conta de o quanto eu andava necessitado de uma leitura que me desse um soco no estômago ou que me sacudisse de cabeça para baixo. Em outras palavras, não queria mais um passa-tempo e sim um livro que ao final de tudo me proporcionasse um estado de reflexão. Necessitava de um desses textos que terminam no livro, mas continuam no leitor. Era tão grande a minha urgência que até cheguei a consultar a estante dos livros de filosofia, mas não encontrei nada que me despertasse imediato interesse. Não conseguindo nada atraente pelas estantes da livraria, decidi olhar para a minha própria estante e escolher qual dos livros enfileirados não-lidos seria o meu próximo destino.
É comum que a maioria dos leitores de livros de ficção leiam quase que exclusivamente pelo puro entretenimento. Existe um incontável número de pessoas que ao invés de guiarem os seus caminhos pelo entendimento e pela percepção do real na fantasia, percorrem apenas os passos da decodificação de palavras. Essas pessoas costumam, ao final de uma leitura, conquistar apenas mais um livro lido, algum outro recorde de tempo de leitura, mas pouca ponderação sobre a história, às vezes quase nenhuma compreensão imediata sobre o que ocorreu na narrativa. Mesmo que o entretenimento seja o destino imediato da literatura, não se pode esquecer do convite à reflexão, o outro destino imprescindível das viagens literárias.
Mas, embora a necessidade de uma leitura que me convidasse à reflexão, acabei decidindo por me aventurar em A Vida de Pi, quase convencido, a julgar pela capa com traços infantis, que a história não passaria de um agradável entretenimento. Dessa forma, deixei-me conduzir pelas palavras do Yann Martel, que abusou da minha confiança na sua história e me seduziu com a sua narrativa inteligente. "Uma história que fará você acreditar em Deus", consta logo nas primeiras páginas do livro. Posso dizer, porém, que se você acredita em Deus, continuará acreditando, mas se não acredita, a descrença persistirá. O fato é que o autor presenteia a consciência do leitor com liberdade e gargalhadas para em seguida prendê-la no tronco da desolação e açoitá-la com duras realidades.
O narrador da história é um garoto indiano de 16 anos chamado Piscine Molitor Patel, mais conhecido como Pi. Ele, que nasceu hindu, conhece com o tempo a história de Jesus Cristo e entra em contato com o Deus cristão, permitindo-se, à sua maneira, amar os deuses de ambas as religiões. No entanto, a Índia também possui uma maioria muçulmana e não tarda até que Pi conheça as palavras do profeta Maomé e se sinta inclinado a abrir um espaço no coração para o Deus Allah. O sincretismo religioso do coração de Pi presenteia a história com diálogos inteligentes e engraçados sobre religião, as faces de Deus e a razão no meio disso tudo.
- Sr. Patel, a devoção de Piscine é admirável. Mas ele não pode ser hindu, cristão e muçulmano. É impossível. Ele precisa escolher.
- Não acho que isso seja um crime, mas suponho que o senhor tenha razão - observou meu pai.
A minha mãe olhou para mim. Um silêncio caiu sobre os meus ombros, pesado.
- Hmmm, Piscine - disse ela, me cutucando. - Como se sente a respeito?
- Eu só quero amar a Deus - retruquei, meio sem pensar, e baixei os olhos, com o rosto inteiramente vermelho.

Na Índia, a família de Pi administra um zoológico e por isso o dia-a-dia do garoto é marcado pela companhia de diferentes espécies de animais. No entanto, devido à instabilidade política no país, a família dele é obrigada pela necessidade a abandonar a Índia e se mudar para o Canadá, pegando carona em um cargueiro que se encarregará de transportar os animais do zoológico para os EUA. Mas o navio, lamentavelmente, afunda logo nos primeiros dias de viagem e Pi se salva indo parar em um bote salva-vidas com uma zebra moribunda, uma hiena, um orangotango e um tigre-de-bengala. É a partir desse momento que se inicia a maior provação de sua vida, onde, ao mesmo tempo, ele precisa lidar com a perda dos ente-queridos, com o perigo de ser devorado pelo tigre e com as suas próprias necessidades naturais.
Quando a nossa própria vida está ameaçada, o nosso senso de empatia é ofuscado por uma terrível e egoísta fome de sobrevivência.
Perder um irmão é perder alguém com quem se pode compartilhar a experiência de crescer; alguém que pode teoricamente lhe dar uma cunhada e sobrinhos, criaturas que vão povoar a árvore da sua vida e lhe dar novos ramos. Perder o pai é perder aquele cuja orientação e cuja ajuda procuramos; aquele que nos apoia como o tronco apoia os ramos. Perder a mãe, bom, e como perder o sol acima de nós, é como perder - desculpem, prefiro parar por aqui.
É travada, no bote, uma luta cruel pela vida entre os cinco mamíferos. O ciclo predatório acontece em um espaço de poucos metros quadrados. É uma luta pela vida, mas, acima de tudo, é uma luta pela motivação de viver quando todo o resto se foi. O sol, o enjoo, as ondas, a chuva e os tubarões pertencem a um dia-a-dia de constante esperança, de constante crença no destino e na certeza de que tudo ficará melhor. Os dias melhores, no entanto, se convertem em queimaduras pela pele e a garganta seca que regurgita por ajuda, tanto humana quanto de Deus, também implora por água.
O Cristo na cruz morreu sufocado, mas a única coisa de que Ele se queixou foi de sede. Se a sede pode ser tão insuportável a ponto de o próprio Deus encarnado se queixar dela, imagine o efeito que exerce sobre um ser humano comum.

Não teria palavras para descrever o livro senão fabuloso. O escritor, além de uma aula sobre religião, dá ao leitor uma aula de zoologia, descrevendo habitats e comportamentos que dão a história uma naturalidade apurada. No mesmo passo que ensina, também desperta algumas reflexões. O livro termina sem levantar bandeiras, sem ser devoto ou tendencioso. Se por um lado o autor frisa a necessidade de amar a Deus independente de religião, por outro ele sugere que a crença em Deus é nada mais que uma escolha entre uma ilusão que conforta a uma verdade que machuca. 
No final das contas, era exatamente esse o tipo de livro que eu andava precisando ler. Desde a  traição ou não da Capitu em Dom Casmurro que eu não ficava matutando tanto tempo em um mesmo assunto e obtendo diferentes interpretações. O filme baseado na obra, porém, suavizou os impactos e a violência presentes na história. Se o livro dá um soco no estômago do leitor, o filme faz um cafuné gostoso na nuca do telespectador e o presenteia com maravilhosas imagens. Mas é exatamente pelo soco no estômago que o livro nos dá que ele deveria ser considerado um leitura obrigatória. Portanto, não percam tempo com os cafunés dos filmes, corram para o masoquismo literário.



Elder Ferreira
Escravo açoitado no tronco eletrônico das redes sociais, baluarte dos mais elevados valores éticos, blogueiro, quando o tempo deixa, no http://oepitafio.blogspot.com.br/ e reclamão, quando o aperto aumenta, no http://twitter.com/elderf.

5 comentários:

  1. Eu já vi o filme com nome diferente, mas com mesmo sentido do livro , o livro ainda não li mas vou ler um dia.

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  2. Perfeito! Eu já queria ler esta obra antes, mas agora estou totalmente encantada e curiosa. Concordo com você, para algumas pessoas livros são puro entretenimento. E isto não é necessariamente ruim. Mas confesso que tirar algo de bom da leitura e deixar com que o livro transforme nossas mentes e vidas é muito mais valioso. Fico impressionada em como algumas páginas são capazes de nos transportar a outras realidades, vivenciar o sofrimento e a superação de "pessoas" fictícias, e no final ter a oportunidade de refletir sobre nossas próprias vidas e mudá-las.
    bjs

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  3. Achei essa história boa, mas não é meu tipo preferido de leitura....Não sei se leria = /

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  4. Não sou adepta a nenhum tipo de masoquismo, que dirá literário.

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  5. Não conhecia este livro, mas achei bem interessante e diferente, e pelo visto, você gostou bastante, o que já conta pontos comigo! haha

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