sexta-feira, agosto 19, 2011

[Texto de Sexta] A gente se acostuma...

A GENTE SE ACOSTUMA
Marina Colassanti



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Fonte

Estava procurando um texto bem legal pra postar e hoje e me deparei com A gente se acostuma, da Marina Colassanti. Me identifiquei mais do que gostria com a leitura, mas já estou tentando me 'desacostumar'.  Espero que vocês se identifiquem menos do que eu! rsrsrsr

6 comentários:

  1. Adorei esse texto. Muito legal mesmo. ótima escolha.. me fez perceber o quanto somos acostumados às coisas e que às vezes nem damos a devida importância para o momento :)

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  2. Adorei o texto. Somos tão acostumados com algumas coisas, que nem nos damos conta do que estamos deixando passar, do que estamos aos poucos perdendo.
    ótima reflexão ;)

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  3. Adorei o texto. Realmente nos acostumamos com coisas que não devemos...
    Eu, ultimamente, tenho tentado me desacostumar, mas é difícil rsrs

    Beijo

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  4. Interessante como esse texto é verdadeiro e identificável com muita gente. Infelizmente me acostumei com muito q é descrito aqui.. mas quem sabe meus olhos não tenham sido abertos? =D verei com o tempo.

    Grande Achado!

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  5. Marina Colassanti escreve muito bem. Muitas verdades com as quais a gente se identifica, e desse jeitinho em que a prosa soa como poesia.

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  6. Adorei o texto, infelizmente o que foi escrito é bem semelhante com o meu cotidiano (talvez tirando a parte do trabalho pois sou menor de idade, mas enfim...)


    IngriD

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